O retorno da Victoria’s Secret às passarelas após seis anos de hiato; a popularização do medicamento Ozempic, usado contra a diabetes e divulgado por sua promessa de perda de peso; e a trend do TikTok “a felicidade é magra”, em que diversos usuários exibem seus corpos em vídeos, evidenciam a retomada das atenções ao padrão de beleza feminino e o renascimento do culto à magreza.

Em um mundo onde as mulheres plus size ainda têm sido pouco retratadas como protagonistas de suas próprias histórias, é urgente falar sobre a importância da representatividade de corpos que não se encaixam no padrão estético. “Se eu só ofereço esse material cultural que diz para mim que ser gorda é errado e que a única forma de ser feliz é sendo magra, mesmo que de forma indireta, eu acredito nisso”, inicia a escritora Larissa Siriani, autora da obra Amor Plus Size.
No Brasil, a diversidade de corpos no padrão de beleza é uma característica marcante. Ao contrário de ideais unidimensionais, o país celebra uma ampla gama de formas e tamanhos corporais. Reconhecer e celebrar essa pluralidade é fundamental para promover o respeito e fortalecer a autoestima de mulheres gordas, fazendo com que se sintam incluídas nos mais diversos espaços.
Na passarela
A moda e a magreza sempre estiveram associadas. A indústria fashion historicamente priorizou corpos magros em seus desfiles, fazendo com que a cultura de consumo fosse centrada no corpo padrão, o tornando uma verdadeira fonte de desejo. “A identidade contemporânea é formada no corpo, então se você só tem um corpo para oferecer às pessoas, ele ganha um papel de centralidade nessa cultura de consumo”, pontua a bacharela em Moda e especialista em Diversidade e Inclusão, Aliana Aires.

O termo plus size foi utilizado pela primeira vez em 1920. Ele foi disseminado pela designer norte-americana Lane Bryant. O intuito da estilista era fornecer roupas de boa qualidade e dentro das tendências para mulheres fora dos padrões. A partir de 1922, os catálogos de sua marca traziam as “Misses Plus Sizes”, popularizando o termo.
Nas décadas de 1990 e 2000, as modelos não-magras começaram a ganhar espaço nas passarelas, mas sua presença se consolidou de fato a partir da década de 2010, impulsionada pelo crescimento da internet, que permitiu às pessoas expressarem seus sentimentos e frustrações perante a indústria. Foi em 2016, então, que pela primeira vez uma modelo plus size desfilou na passarela do São Paulo Fashion Week (SPFW).
Savage X Fenty show

O desfile-show da Savage X Fenty, marca de lingeries de Rihanna, se tornou um sucesso mundial. A apresentação é um dos shows mais esperados da cultura pop, destacando-se por trazer representatividade e diversidade às passarelas. Desde suas primeiras aparições, o espetáculo apresentou modelos de diferentes tamanhos, idades, gêneros, etnias e corpos, trazendo a mensagem de que todos possuem o direito de se sentirem sexy.
O Savage X Fenty show alcança um grande grupo de consumidores que sente que a marca realmente entende seus desejos e necessidades. Um exemplo disso é a variedade das calcinhas, que abrangem desde o tamanho XS até o 3XL. Para fazer uma comparação com os números usados no Brasil, isso equivaleria a uma grade que vai do PP ao XGG.
O espetáculo idealizado por Rihanna possui uma abordagem artística e é uma experiência imersiva na qual o público presta atenção em cada detalhe para além das roupas da coleção. As três edições do show estão disponíveis para assistir no Amazon Prime Video.
“Plus size” é o termo ideal?
Por volta de 1920, o termo “plus size” era utilizado apenas para se referir às peças de roupas. Nas campanhas, as mulheres eram chamadas de “robustas” e, em casos raros, a palavra “gorda” era utilizada.
Para a bacharela em Moda e especialista em Diversidade e Inclusão, Aliana Aires, o termo plus size foi muito importante para a história da inclusão, mas, hoje, é ultrapassado. “Embora eu não diminua o potencial significativo de haver o mercado plus size, devemos questionar o termo. A nomenclatura teve uma função social que já deveria estar em desuso”.
A pesquisadora complementa ainda que uma pessoa ser identificada como plus size, em termos linguísticos, a reduz a uma mercadoria, já que o termo se refere apenas a um “tamanho grande”, em tradução livre.
Pesquisadores da causa defendem que as características físicas não devem ser consideradas um xingamento. Ser gorda é apenas uma característica, assim como ser alta, baixa, preta ou branca. Ainda assim, termos como “fofa”, “forte” ou “grande” costumam ser usados para substituir a palavra, reforçando a ideia, aprendida desde a infância, de que ser gorda é algo negativo.
Moda em construção
A moda tem o poder de transformar e dar significado à vida, graças à sua capacidade de estabelecer uma conexão pessoal com cada um de nós. Por isso, é essencial que ela seja democrática e acolha todos os tipos de corpos.
De acordo com um levantamento realizado pela Associação Brasil Plus Size (ABPS), o mercado de marcas brasileiras do nicho movimentará R$ 15 bilhões até 2027. O relatório também aponta um crescimento de 75% do segmento no país nos últimos 10 anos. Mas, apesar do notório espaço que a categoria ocupa na indústria, ainda existem muitos aspectos para evoluir. “O mercado plus size é gigantesco. Ele está escancarado e em busca de produtos de todo o tipo”, pontua a designer de moda e especialista em produtos de moda plus size, Juliana Zeilmann.

Para a estilista, a moda festa, que inclui vestidos para casamentos e formaturas ou peças de alfaiataria em geral, é uma das mais difíceis de encontrar. Alugar vestidos de noiva, por exemplo, ainda é um grande desafio, já que poucas lojas oferecem uma ampla variedade de tamanhos.
Outro fator que impede o acesso à moda plus size é o valor das peças, que geralmente costumam ser mais elevadas. Isso acontece porque, em geral, a consumidora não encontra tantas opções em diferentes lojas que a permitam fazer uma comparação de preços.
Estilo e conforto
Pensando nos desafios de compra enfrentados por diversas mulheres, a designer de moda decidiu criar a sua própria marca de roupas. Entre biquínis, lingeries e peças fitness, os looks promovem, acima de tudo, conforto para as clientes.
“Embora muitas mulheres comprem um biquíni GG, o tamanho real delas pode ser até três números maiores, o que acaba causando certo desconforto ao vestirem peças menores”, compartilha.
A empresária também cita a busca pelos produtos da área fitness. Segundo ela, essas peças fazem mais do que simplesmente vestir uma pessoa. “As marcas plus size conseguem permitir que uma pessoa gorda faça academia. A gente proporciona uma melhor qualidade de vida para aquela pessoa”, reflete.
Caminhos para a inclusão
Para além da confecção das peças, Juliana afirma que conversa com cada mulher que vai ao seu ateliê, fazendo um relatório do tipo do seu corpo e das suas necessidades. “Para promover inclusão, a roupa plus size precisa ser confortável, respirável e antitranspirante. É preciso estudar além da tendência.”
A bacharela em moda e especialista em Diversidade e Inclusão, Aliana Aires, afirma que para a construção de uma moda mais inclusiva é necessário que as marcas estudem e se conscientizem sobre o que significa inclusão. “Simplesmente aumentar a grade de tamanhos não faz sentido. É preciso estudar”, ressalta.
Outra sugestão citada por Aliana é a necessidade de um investimento financeiro que estimule as empresas de moda. Esse tipo de incentivo pode viabilizar a criação de peças mais inclusivas, além de fomentar a diversidade no setor.
Representatividade importa!
Quantas personagens gordas você já viu em produções audiovisuais que não eram retratadas como doentes, tristes ou eram simplesmente um alívio cômico para a trama? De fato, seja a mocinha da novela, a super-heroína do cinema ou a protagonista de um romance nos livros, as personagens principais das tramas são, em sua maioria, magras.
Contrariando essa realidade, a série Bridgerton, da Netflix, inspirada nos livros de romance de Julia Quinn, trouxe uma mulher fora dos padrões para assumir o papel de protagonista.
Diferente das outras personagens, Penelope Featherington é a única mulher gorda entre as temporadas disponíveis. Interpretada por Nicola Coughlan, Penelope trouxe representatividade para diversas mulheres que puderam se sentir na pele da personagem através da ficção.

Lugar de protagonista
A romancista Larissa Siriani já publicou mais de 15 obras, sendo Amor Plus Size (2016) um de seus maiores sucessos. Em seus livros, Larissa destaca protagonistas com corpos fora dos padrões, promovendo maior diversidade na literatura.

Apesar de dialogar mais diretamente com o público jovem, a autora afirma que a grande maioria dos seus leitores é composta por adultos. Isso ocorre porque, quando essas pessoas eram adolescentes, elas não tinham acesso a protagonistas que as representassem. “Ler sobre pessoas gordas fez com que eu perdoasse dores que eu carregava comigo desde adolescente. E, em paralelo, isso também é uma realidade dos meus leitores. A maioria são pessoas adultas que dizem que queria muito ter lido esse livro quando tinham 15 anos”, reflete.
Larissa também comenta sobre a representatividade na ficção brasileira. “A gente ainda tem muito trabalho a fazer, até chegarmos a um ponto em que a representatividade não precise mais ser um tema de debate, onde eu não precise diferenciar um livro com um check-list do que é ou não representativo, porque isso já será algo natural no dia a dia das pessoas”.
Muito a celebrar
Embora a representatividade ainda não esteja plenamente presente em todos os espaços, há muito a celebrar. “Sem dúvida, no quesito diversidade, o simples fato de podermos unir moda e diversidade na mesma frase já é um grande avanço, algo impensável há alguns anos”, ressalta a bacharela em Moda e especialista em Diversidade e Inclusão, Aliana Aires.
O avanço na inclusão abriu espaço para que diferentes pessoas se reconhecessem em lugares onde antes não se sentiam pertencentes. Aliana destaca que, embora ainda haja um longo caminho a percorrer, o fato de o tema estar em pauta já é muito positivo. “Para continuarmos avançando, é essencial promover ações mais amplas, que ultrapassem o nível midiático.”
