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Cientistas comprovam que a amizade feminina pode curar o estresse

“A palavra amizade não tem um significado, mas vários”, é o que afirma o jornalista e escritor italiano Francesco Alberoni. E vivendo em um mundo pluralizado e globalizado, esse pensamento se confirma a cada dia. Afinal, em pleno século 21, é comum ter amizade entre mulheres e homens, de maneira “real” e on-line, e até mesmo entre pessoas de diferentes idades.

Duas mulheres mais velhas com óculos de sol e corta-vento
David L/peopleimages.com – stock.adobe.com Qual é o poder da amizade feminina?

 Mas por que investir tanto em relacionamentos? Uma pesquisa publicada no Journal of Personality and Social Psychology diz que pessoas expostas a situações estressantes apresentam níveis mais baixos de cortisol, o hormônio do estresse, quando estão acompanhadas por um amigo próximo, fato que comprova cientificamente o benefício de ter sempre com quem contar. A amizade feminina, no entanto, nem sempre foi tratada de forma positiva. No filme Meninas Malvadas, de 2004, a relação entre Regina George, Cady Heron, Karen Smith e Gretchen Wieners não é apresentada de maneira encorajadora. Entre elas, a rivalidade e o sentimento de superioridade prevalecem. E a amizade entre mulheres não é isso. 

Para a fundadora do Lúcidas, projeto que promove a amizade feminina como pilar essencial de bem-estar, Larissa Magrisso, o papel da amizade na vida das mulheres é essencial e uma prioridade. Afinal, “as amigas permitem que a mulher tenha um laço em que ela não está performando algo para um homem, para ser escolhida ou para cuidar mais do que vai ser cuidada”. Independente da idade ou geração, a verdade é que a amizade feminina salva. 

Amizade feminina: de hoje, para sempre

Creche, escola e graduação: esses são alguns dos lugares que marcam o início de várias amizades. Nas fases da vida, essas ligações acontecem de diferentes maneiras. Segundo a psicóloga clínica Heshyley Gonçalves Amaral, as amizades se formam de um jeito na adolescência e, de outro, na vida adulta.

“Na adolescência, o ambiente em que estamos inseridos costuma ser o principal fator de aproximação, por exemplo, a escola, o bairro ou um curso. Já na vida adulta, vínculos de amizades se constroem a partir de afinidades, valores e experiências compartilhadas”, explica a profissional. 

Mulher de pele clara, com roupa e cabelo escuro. Ela está usando batom vermelho
Heshyley Amaral, Arquivo pessoal

Com o passar dos anos, as relações mudam e acompanham o ritmo da vida, com novos relacionamentos, mudança de cidade, carreira e filhos. “Algumas amizades permanecem, outras se tornam mais distantes, não por falta de afeto, mas porque a vida exige um ritmo diferente”, reflete Heshyley. Mas em todas as idades e momentos da vida esse carinho funciona como um espaço seguro e de acolhimento, que fortalece a autoestima e a sensação de pertencimento. 

Além disso, um estudo feito pela Universidade da Califórnia (UCLA), nos Estados Unidos, diz que ter amigas pode sim prolongar a vida. De acordo com a pesquisa, o apoio emocional e a empatia que as mulheres proporcionam entre elas contribui para a diminuição dos níveis de estresse e, consequentemente, o aumento da sensação de bem-estar. Em relação a esse dado, a psicóloga diz que isso acontece porque a “amizade oferece suporte prático e psicológico: é alguém que escuta, aconselha, distrai e muitas vezes ajuda a reorganizar a vida quando tudo parece desmoronar”. 

“A amizade oferece suporte prático e psicológico: é alguém que escuta, aconselha, distrai e muitas vezes ajuda a reorganizar a vida quando tudo parece desmoronar”, Heshyley Gonçalves Amaral, psicóloga clínica.

Amizade feminina é para todos os momentos

Ter uma rede de apoio pode até estar mais associado à maternidade, mas não é exclusividade dela. Segundo a psicóloga, as amizades de apoio “são aquelas que nos acompanham em momentos difíceis, de vulnerabilidade, oferecendo escuta e acolhimento. Nem sempre são pessoas do convívio diário, mas possuem um papel importante em fases diferentes”.

Durante momentos delicados, como término de relacionamento, dificuldades emocionais e mudança de cidade, por exemplo, a amizade feminina se torna um refúgio. Nessas horas, são as amigas que ajudam a reorganizar a rotina, oferecem escuta e trazem de volta quem a mulher é para além daquilo que ela está vivendo. 

As amigas representam um lugar de cuidado mútuo, em que as mulheres se sentem acolhidas, cuidadas e estimuladas mesmo nos momentos mais difíceis. Enquanto passava pelo luto, Regane Iane Ferreira, de 66 anos, teve o apoio das primas para conseguir lidar com esse momento delicado. “Posso dizer que elas foram a minha terapia”, revela. 

Foto do grupo de mulheres denominado Primas Gatosas
Primas Gatosas/Arquivo Pessoal

Regane faz parte do grupo Primas Gatosas, que reúne 11 primas das famílias Reinhardt e Becker. Juntas, elas mostram que a conexão vai muito além do sangue e perpassa todos os âmbitos da vida. Além de estarem presentes nos momentos mais difíceis, Regane diz que foi com as primas que aprendeu a dar gargalhadas. “Porque antes você é mãe, dona de casa e vó, você não tem tempo para isso. Você não tira tempo para isso.” No entanto, com o apoio e os encontros, esse ato se tornou rotineiro. 

Ligação de alma: a amizade feminina ao longos dos anos

As primas Reinhardt e Becker se conhecem desde sempre mas, com o decorrer da vida, acabaram se afastando. Em um velório de um familiar, entretanto, elas se questionaram se só iriam se encontrar nessas ocasiões. Com a vontade de reconectar os laços, elas decidiram se reunir e criaram um grupo, que já está junto há 11 anos. Para Lizete Maria Bauer, de 68 anos, essa união transformou a vida de todas. 

Durante esses 11 anos, as Primas Gatosas passaram por momentos intensos, alguns alegres e outros nem tanto. Além de Regane, que perdeu o filho, Lizete sofreu a perda do marido e do gato, e afirma que sem a conexão com as primas, tudo teria sido mais difícil. “Essa amizade, eu tenho certeza, nos faz levantar todo dia mais feliz”, diz Eliana Valquiria Reinhardt, de 56 anos.

Foto do grupo de mulheres denominado Primas Gatosas
Primas Gatosas/Arquivo Pessoal

Com roupas combinando, festas e viagens marcantes, o grupo, natural de Novo Hamburgo, possui mais de 13 milhões de visualizações nas redes sociais e é uma fonte de inspiração para quem deseja ter uma amizade unida, forte e verdadeira. Para isso, a dica das Gatosas é ter respeito pelas amigas e manter sempre o contato físico, com abraços e sorrisos, pois isso aproxima e estreita laços.

Mas amizade tem idade?

Segundo o psicólogo Willian Chopik, amizades sólidas e confiáveis são mais determinantes para a boa saúde e a felicidade na velhice do que sua relação com familiares. O profissional acredita que isso ocorre pois, com o passar dos anos, as amizades sólidas ficam e se tornam uma fonte de apoio. 

Para essa relação prosperar, não importa a idade, mas a intenção e a intensidade desses laços. Para Larissa Magrisso, idealizadora do projeto Lúcidas, a relação humana profunda requer dedicação, afinal, é preciso se abrir ao mundo, às pessoas e às culturas. 

Larissa Magrisso
Divulgação | Estúdio Camila Vieira

Novas fases da vida trazem mudanças no comportamento e nas relações, e isso é natural. Com a maturidade, as amizades se tornam ainda mais importantes, porque ultrapassam a ideia de circunstância ou conveniência, explicita a psicóloga Heshyley. “A amizade feminina se intensifica em momentos de vulnerabilidade e transição”, complementa. 

Uma maneira de fazer novos amigos em qualquer idade é por meio das redes sociais, porém, é preciso entender que “as pessoas a quem você está conectado não são necessariamente suas amigas de verdade”, explica o sociólogo Nicholas Christakis, da Universidade de Harvard. Nesse sentido, é preciso ter cuidado com as relações e tentar manter o contato físico com as amigas, sendo um abraço diário ou um jantar mensal. 

Impactos das relações femininas

As amizades possuem impactos diferentes na saúde emocional, mental e física. Ter amigas para compartilhar dores e alegrias, aliás, reduz a sensação de solidão e ajuda a validar experiências, segundo a psicologia. Inclusive, a profissional apresenta pesquisas em que mulheres que cultivam amizades sólidas têm menores índices de depressão e ansiedade. 

Na saúde física, segundo Heshyley, esses vínculos estão relacionados “à redução do estresse, pois conversar e se sentir compreendida diminui os níveis de cortisol, hormônio responsável pela reação”. É fato: cultivar amizades femininas é uma maneira de cuidar de si mesma.

Amigas ou rivais?

Quatro mulher caminhando juntas
Divulgação

Durante décadas, a amizade feminina foi retratada com uma visão masculina em Hollywood, o que contribui com diversos estereótipos negativos. Por anos, filmes e séries retratavam as mulheres como rivais e estimulavam a competição. 

O impacto de ver essas relações nas telas faz com que muitas pessoas cresçam acreditando que a amizade feminina sempre será marcada por comparação, inveja e disputa. Além de não ser uma visão correta, ela “enfraquece a confiança, porque se eu espero ser julgada ou traída, dificilmente vou me abrir de forma vulnerável com outra mulher”, explica Heshyley. 

Na contramão disso, Sex And The City lançou seu primeiro episódio em 1998 e trouxe uma narrativa diferente para a sua época: a amizade inabalável de Carrie Bradshaw, Miranda Hobbes, Samantha Jones e Charlotte York. Com seis temporadas, a série trouxe tópicos que eram considerados tabu, como poder feminino, carreira e sexualidade, além de mostrar a amizade com o viés de rede de apoio, companheirismo e lealdade. 

Dicas de séries sobre amizade femina

Se antigamente a amizade era retratada com teor de competição, atualmente o cenário não é mais o mesmo. Por isso, selecionamos histórias retratadas na ficção que vão te inspirar na vida real.

Coisa Mais Linda – A vida de Maria Luiza, interpretada por Maria Casadevall, sofre uma reviravolta quando seu companheiro some em uma viagem para o Rio de Janeiro. Ao ir atrás dele, um novo mundo é apresentado a ela por mulheres feministas e liberais que contrariavam as expectativas da década de 1950.

Imagem da série Coisa Mais Linda
Divulgação

Insecure – A amizade de Issa e Molly surgiu a partir de muitos gostos em comum, além de dramas e problemas. As duas precisam encarar com muita força e determinação situações preconceituosas e, com isso, se tornam ainda mais próximas e unidas. 

Imagem da série Insecure
Reprodução

As Telefonistas – Na Madri dos anos 1920, Lidia, Carlota, Marga e Ángeles são amigas e trabalham em uma empresa de telefonia, onde vivem aventuras cheias de amor, mistérios, vingança e poder. Unidas, elas enfrentam desafios por serem mulheres subversivas em um período conservador. 

Imagem da série As Telefonistas
Reprodução

O para sempre é real?

Em um mundo marcado pela globalização e pelas redes sociais, manter os vínculos saudáveis e ativos pode ser uma dificuldade. No entanto, existem algumas estratégias que podem ser feitas, como explica a psicóloga clínica, Heshyley. 

Entre as táticas principais, a profissional ressalta a intenção e o cuidado mútuo. “Não é sobre estar presente o tempo todo, mas sobre mostrar que aquela relação importa, mesmo com a correria do dia a dia”, complementa. Além disso, ela lista quatro dicas para pôr em prática: 

  • Manter pequenos rituais de conexão: como uma mensagem, chamada de vídeo, ligação e até mesmo um café;
  • Comunicação aberta: explicar seu momento de vida evita mal entendidos e fortalece a confiança; 
  • Ser compreensiva: cada fase traz ritmos diferentes e respeitar isso ajuda a preservar o vínculo; 
  • Valorizar a reciprocidade: gestos de afeto e apoio, mesmo que pequenos, geram a sensação de estar presente. 

Para as Primas Gatosas, o que garante uma amizade boa e duradoura é um dos valores humanos essenciais para viver em sociedade: o respeito. Ele, combinado às estratégias acima, é o aliado para uma conexão feminina real e benéfica.

Yasmin Mallmann

Jornalista formada pela Universidade Feevale. É redatora e escreve sobre beleza, com foco em tendências e novidades, e dá dicas de livros — especialmente de romance. Atua na área da comunicação desde 2022, com experiência em agência de publicidade e redação diária. Além de repórter no digital, produz conteúdo para o impresso e é colunista social. Apaixonada por maquiagem, unhas e pela leitura, também faz vídeos para as redes sociais sobre os temas.
Fale comigo em: yasmin.mallmann@gruposinos.com.br

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