O som da máquina de costura é familiar para muitos brasileiros. Seja pelas mãos habilidosas de mães, avós, tias ou costureiras de bairro, todo mundo já deve ter visto ou convivido com alguém que manuseava o equipamento, consertando peças ou até mesmo as confeccionando.

No Brasil, a costura passou a fazer parte do cotidiano das pessoas em meados do século XX. “A figura do costureiro no país surgiu sem uma produção autoral expressiva. A maioria das peças seguia modelos europeus, com tecidos, moldes e acessórios importados”, explica a historiadora de moda e arte, Giselle Padoin.
A partir da década de 1960, o país começou a revelar uma geração de costureiros autênticos, responsáveis por estruturar e consolidar a identidade da moda nacional. “O Brasil passou a ter os seus próprios criadores, como Dener Pamplona de Abreu, que deu início a uma produção autoral, exclusiva e genuinamente brasileira”, acrescenta.
Atualmente, o número de profissionais do setor é expressivo, ficando atrás apenas da indústria de alimentos. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), são 1,34 milhão de trabalhadores formais e cerca de 8 milhões de informais, dos quais aproximadamente 60% são mulheres.
No entanto, apesar da relevância econômica e social, o segmento enfrenta desafios como a baixa remuneração, a falta de costureiros qualificados e a informalidade, com mais da metade dos profissionais trabalhando sem registro formal. Todos esses fatores contribuem para a discussão: qual o futuro da profissão e o seu impacto na moda?
No Brasil, a costura passou a fazer parte do cotidiano das pessoas em meados do século XX. “A figura do costureiro no país surgiu sem uma produção autoral expressiva. A maioria das peças seguia modelos europeus, com tecidos, moldes e acessórios importados”, explica a historiadora de moda e arte, Giselle Padoin.
Costureiras nas indústrias
Mesmo sendo um dos setores que mais crescem no país (com faturamento de R$ 215 bilhões em 2024, segundo a Abit), a indústria têxtil enfrenta dificuldades para atrair novos talentos, especialmente por conta da escassez de profissionais qualificados e do desinteresse das novas gerações por atividades manuais.
A entrada da Geração Z (pessoas nascidas entre 1990 e o início da década de 2010) no mercado trouxe um novo olhar sobre esse tipo de trabalho. Jovens profissionais buscam propósito, flexibilidade, diversidade — valores que muitas vezes não fazem parte de culturas organizacionais mais tradicionais.
Além disso, com o crescimento de outros setores da economia e com a profissão de costureira pouco reconhecida, essa geração prefere seguir carreira em áreas que ofereçam melhores condições de trabalho e maior reconhecimento profissional.
A CEO e diretora criativa da Rala Bela, marca esportiva e casual com sede em Bom Princípio/RS, Marines Luft, explica que a falta de mão de obra impacta diretamente no fluxo produtivo da empresa, além de gerar dificuldade em momentos de alta demanda. “Em alguns períodos, foi necessário replanejar entregas e redistribuir as tarefas para manter o prazo estabelecido e não comprometer a qualidade do produto”, exemplifica.

Para ela, a falta de costureiras limita o crescimento das empresas dentro da indústria da moda, impactando diretamente na competitividade do mercado. “Esse problema compromete a competitividade, especialmente em um setor como a moda, em que a agilidade e a diferenciação são fundamentais”, esclarece.
Outro problema citado pela diretora são os custos operacionais, que tendem a aumentar não apenas pelos gastos padrões da empresa, mas também pela necessidade de retrabalho, investimento em treinamento intensivo e, muitas vezes, pela contratação de funcionários terceirizados para suprir a falta de mão de obra.
Capacitação
Segundo Marines Luft, a falta de formação adequada também compromete o setor. Muitas vezes, os cursos não acompanham as transformações tecnológicas da indústria. “Um dos maiores desafios está no estudo e no engajamento das pessoas em seguir nessa profissão, que exige precisão, qualidade, paciência e conhecimento técnico. Hoje, poucas instituições oferecem essa capacitação”, afirma.

Para garantir boas oportunidades e ter destaque no mercado, a qualificação é fundamental. “Setores como costura e modelagem são especialmente críticos, pois exigem não só habilidade técnica, mas experiência prática e domínios específicos do produto com o qual o profissional vai trabalhar”, explica.
Em lugares mais afastados, distantes das capitais e dos grandes centros urbanos, encontrar esse tipo de aprendizagem é ainda mais difícil, enquanto as opções ofertadas on-line nem sempre são viáveis para todos os alunos devido à necessidade de conexão. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aproximadamente 22,6 milhões de pessoas não têm internet em suas casas.
Nesse contexto, os maquinários disponíveis para a indústria contribuem na produção e na agilidade dos processos. No entanto, mesmo com esses equipamentos, o papel de costureiros é indispensável. “Mesmo com a automação trazendo agilidade, o olhar da pessoa humana é essencial em várias etapas. Desde os ajustes no acabamento e até na sensibilidade para entender o caimento da peça, as proporções e o conforto, a habilidade de resolver imprevistos em tempo real são capacidades que nenhuma máquina consegue substituir”, reforça Marines.
Desafios do ensino para costureiras
Para a mestre em moda e especialista em Modelagem de Vestuário Natália Forte, o avanço da tecnologia é um dos principais motivos para que as novas gerações não desenvolvam habilidades manuais.
Docente em cursos de costura de vestuário no Vale dos Sinos, Natália cresceu cercada por máquinas de costura. Ela observa que, no passado, as pessoas construíam esse talento de forma espontânea, fosse ele transmitido através de uma mãe ou de uma avó costureira, ou de um avô alfaiate.

Hoje, porém, com a rotina cada vez mais digitalizada, a costura vem sendo deixada de lado, tornando-se um desafio para os alunos, especialmente por exigir concentração, algo distante da rapidez das telas. “Como desenvolver essa calma em uma geração tão digital? Alguns estudantes acham difícil e estão usando a aula de costura justamente para exercitar essa paciência que procuram. A costura é usada como uma espécie de terapia”, exemplifica.
A especialista também relata que um dos maiores desafios é mostrar que é possível ter um bom retorno financeiro com a costura. “Muitos deles recorrem a sites e aplicativos de fast fashion para consultar os preços das peças e, assim, saberem quanto poderão faturar no futuro. Essa comparação costuma desmotivá-los a seguir na profissão”, argumenta.
Fora dos padrões
Ao pensarmos em costura, é provável que a imagem atribuída seja de uma mulher, em geral, de meia idade: nem muito jovem, nem muito velha. De fato, o público que procura um curso é majoritariamente feminino, mas alguns perfis de costureiras vão contra esse padrão.
Natália Forte conta que já teve muitos alunos da terceira idade, por exemplo. “Com os idosos, eu percebo uma tendência de comportamento. É muito comum que a costura seja procurada como forma de entretenimento, para fazer alguma coisa diferente.”
Outra presença constante nas aulas de costura são os homens, embora em números menores. Em geral, eles buscam oportunidades de trabalho no setor calçadista. Segundo a especialista, nos cursos em que leciona há seis anos, sempre há pelo menos um ou dois alunos do sexo masculino interessados na costura.
Há, ainda, o grupo de mulheres de meia-idade que começam a se preparar para a aposentadoria. Muitas delas buscam uma rotina mais leve e flexível que possa ser conciliada com os afazeres de casa. “Essas alunas geralmente fazem o curso à noite, enquanto ainda estão empregadas, pensando em um futuro com mais autonomia”, completa.
Idade para costurar
Quebrando padrões associados à profissão, Diênefer Scopel, de 24 anos, atua como costureira em uma fábrica de calçados do Rio Grande do Sul. Para a jovem, a habilidade manual faz parte da rotina desde os 18 anos. “Desde pequena eu sempre gostei de fazer roupinhas para as minhas bonecas, e sempre me imaginei fazendo roupa para as pessoas”, afirma.
O amor pela costura é tão grande que Diênefer costuma usar o tempo livre de seus intervalos para a confecção de estojos. Foi assim, inclusive, que ela costurou peças para o seu Trabalho de Conclusão de Curso em Design Gráfico.
A costureira afirma que é a pessoa mais jovem dentro da fábrica onde trabalha. “No meu setor, que possui aproximadamente quarenta pessoas, a maioria das profissionais é bem mais velha do que eu”, assegura. Para ela, isso ocorre porque os jovens não possuem interesse em seguir esse tipo de carreira. “Eu sinto que falta vontade do público mais jovem em aprender algo manual, em querer trabalhar na indústria.”
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Projetos sociais
Para incentivar a costura e os talentos ocultos no país, projetos sociais são desenvolvidos em prol de comunidades locais para pessoas em situação de vulnerabilidade. A Associação Arca de Noé, ou “Arca”, como é conhecida, é uma ONG franco-brasileira que atua na favela da Vila Prudente, na zona leste de São Paulo.
Com a missão de contribuir para a construção de um futuro melhor para os seus moradores, o projeto é dividido em três segmentos: Arca do Saber, centro socioeducativo que atende crianças; Arca do Crescer, centro profissionalizante para os jovens e adultos; e Arca do Fazer, ateliê onde mulheres em situação de vulnerabilidade costuram e vendem peças para ter uma fonte de renda.

A gestora do ateliê, Daiana Silva, explica que as costureiras do projeto atuam como MEI e recebem os lucros pelos itens desenvolvidos. “Nós ajudamos elas a abrirem esse tipo de conta para não trabalharem informalmente e para terem algum tipo de estrutura”, compartilha.
As profissionais recebem pedidos de clientes corporativos, assim como desenvolvem produtos para a própria coleção da ONG, que podem ser adquiridos por terceiros. Bolsas, necessaires, toalhas, aventais, almofadas e brindes personalizados são alguns dos artigos disponíveis.
Em geral, as mulheres beneficiadas pelo projeto são mães solteiras que buscam a oportunidade de permanecer ao lado dos filhos, conciliando o cuidado da casa com o trabalho. Outro perfil citado por Daiana é o de mães com filhos com necessidades especiais. Nesse caso, elas encontram na costura um meio de permanecer ao lado da criança, ao mesmo tempo em que geram uma fonte de renda.
Para a gestora, o projeto desempenha um papel importante na vida das mulheres, dando oportunidades que muitas vezes elas não alcançariam sozinhas devido ao local onde estão inseridas. “Elas possuem estudo e ferramentas, mas às vezes não têm oportunidades, e quando a Arca consegue proporcionar a opção de elas receberem um valor pelo próprio trabalho, isso para mim é algo gratificante”, revela.
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Futuro da profissão
A costura é uma profissão que envolve técnica, paciência e prática. Uma costureira é capaz de tornar real o que antes era só uma ideia ou consertar o que seria descartado. Por meio de linhas, agulhas e maquinários, a profissão se mostra essencial para a moda e, consequentemente, para a economia do país.
“Eu vejo que a diminuição do número de costureiras pode influenciar na produção de moda em geral. Na moda industrializada, na moda autoral ou qualquer possibilidade de fazer uma roupa”, afirma João Braga, especialista em História da Moda e membro da Academia Brasileira da Moda.
A falta de costureiras qualificadas representa um desafio para o segmento, mas é também uma grande oportunidade para quem deseja ingressar ou investir no setor. Nesse contexto, é importante que as empresas incentivem suas costureiras, forneçam o treinamento adequado e salários justos.
“Com a valorização crescente da moda autoral e artesanal nos dias de hoje, é primordial iniciativas que incentivem a manutenção de técnicas ancestrais e artesanais em comunidades e pequenos ateliês, para que essas tradições não se percam”, elucida a historiadora de moda e arte, Giselle Padoin. O reconhecimento da costura como base estrutural da moda, que exige saber técnico e sensibilidade, é fundamental para que o setor avance de forma justa.
