Enquanto grandes semanas de moda pelo mundo ainda discutem como incorporar práticas sustentáveis aos seus eventos, Copenhagen já transformou esse debate em política concreta. Desde 2023, marcas que desejam desfilar no calendário oficial da Copenhagen Fashion Week (CPHFW), que se encerra hoje, dia 30 de janeiro, precisam atender a 19 requisitos mínimos de sustentabilidade.

De acordo Symone Rech, especialista em negócios de moda com mais de 30 anos de experiência no mercado e fundadora da plataforma de pesquisa New & Now, Copenhagen ficou famosa por tentar organizar a sustentabilidade como regra do jogo. Para ela, a semana de moda dinamarquesa se tornou sinônimo de responsabilidade ambiental por dois motivos principais. “O primeiro está na própria cultura nórdica, historicamente marcada por transparência e cuidado com o meio ambiente. O segundo foi a decisão estratégica de transformar esse tema em estrutura, não apenas em narrativa”,explica.

A organização do evento implementou, entre 2020 e 2022, um plano de ação formal que estabeleceu metas, governança e a criação de um conselho consultivo de sustentabilidade. Em seguida, anunciou os requisitos mínimos que passariam a valer a partir de 2023.
“Existe uma política concreta. Não é só ‘a vibe sustentável’. Tem lista, tem critério, tem prestação de informação para fazer parte”, destaca Symone. Os 19 padrões obrigatórios abrangem áreas como direção estratégica, materiais utilizados, condições de trabalho na cadeia produtiva e restrições a itens de uso único na produção dos desfiles.
Copenhagen Fashion Week vira referência internacional
O impacto dessas medidas ultrapassou as fronteiras dinamarquesas. Outras semanas de moda começaram a adotar o modelo de Copenhagen como base para suas próprias políticas, como o British Fashion Council em Londres e parcerias anunciadas em Berlim.
Marcas como Ganni, Cecilie Bahnsen e Stine Goya ajudaram a projetar Copenhagen internacionalmente. Além disso, projetos como Rave Review se tornaram referência em circularidade, com uso de upcycling e tecidos deadstock. “Copenhagen não transforma toda marca em sustentável, mas cria um contexto onde responsabilidade vira exigência e onde a conversa amadurece”, resume Symone.
Para a especialista, Copenhagen ajudou a “normalizar” a conversa sobre requisitos e compliance dentro de um ambiente que sempre foi muito pautado por imagem. “Quando um evento passa a exigir compromissos mínimos e transparência para fazer parte do calendário, isso muda a forma como compradores internacionais avaliam marcas nórdicas, especialmente as menores, que precisam demonstrar coerência para competir fora da região”, explica.
Desejo do consumidor no centro da equação
Sobre o futuro da moda sustentável, a especialista é direta. “Não existe hoje um sistema completo de produção, consumo e descarte que seja 100% sustentável, viável ao mesmo tempo para a indústria e para o consumidor. Sustentabilidade não é um estado final, é uma direção, feita de avanços graduais, escolhas melhores e redução de impacto”.
E há um ponto fundamental no comportamento do consumidor que a indústria precisa reconhecer. Para Symone, as pessoas não compram um produto apenas porque ele é sustentável. Compram quando a peça é funcional, atemporal, reparável e, principalmente, desejável. “Ninguém compra só por consciência. Compra porque é bonito, porque quer usar, porque se reconhece ali. O futuro da moda, nos próximos 20 anos, passa muito mais por essa integração entre impacto menor, qualidade maior e desejo real do consumidor, do que por promessas absolutas que ninguém consegue cumprir”, completa.
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