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Para não chegar ao limite

10.09.2021 por Adriana Sikora Barboza

A importância da atenção com a saúde mental pode fazer toda a diferença na qualidade de vida humana. A seguir confira o que dizem especialistas da área da saúde sobre como ter uma vida mais equilibrada

Foto: Comitê Olímpico

A ginasta norte-americana Simone Biles, 24 anos, trouxe à tona uma realidade pouco falada até então na grande mídia, durante os Jogos Olímpicos de Tóquio: a importância dos cuidados com a saúde mental frente à exaustão e o estresse em nome de uma conquista profissional. 

Simone impactou a todos ao deixar de participar das principais provas da ginástica as quais a alçaram ao posto de atleta mais condecorada na história dos Estados Unidos (é vencedora de 25 medalhas em campeonatos mundiais, sendo 19 de ouro). Não se sabe ao certo o que de fato ocorreu com a atleta, mas a mudança de atitude teve a ver com a preservação de sua saúde mental, conforme ela declarou à imprensa mundial: “corpo e mente não estão em sintonia”.

O relato é chamado de "twisties", ou ainda, descompassos entre corpo e mente. Para descobrir quais fatores influenciam no avanço de um desgaste emocional e o que pode ser feito para manter a mente em equilíbrio, conversamos com especialistas na área de Psicologia e Educação Física. De acordo com a mestre em Psicologia e psicóloga clínica, Gabriela Damasceno, de Porto Alegre, há uma soma de circunstâncias que levam o indivíduo ao seu limite, muitas vezes sem perceber. “São diversas, desde fatores externos, sobrecarga de demandas, alta exigência na execução das mesmas, pouco suporte, problemas organizacionais e financeiros e falta de comunicação, até fatores internos, como um alto grau de exigência, de cobrança e perfeição na realização das tarefas, autocrítica intensa, pressão por produtividade constante, abandono de atividade que trazem um senso de vitalidade e sentido na vida, entre outros”, explica.

IMPACTO DA PANDEMIA NA SAÚDE MENTAL

Foto: Fotolia

O mundo reaprende a viver com as restrições e perdas a partir da Covid-19. De acordo com a psicóloga Gabriela Damasceno, o aumento de emoções mais intensas potencializou o desgaste emocional entre os indivíduos. No recorte brasileiro, a redução de empregos e impossibilidade de trabalhar desencadeou uma série de outros problemas. “O acúmulo de demandas, a dificuldade em implementar novas rotinas coerentes com os protocolos de saúde e a instabilidade do contexto são fatores que acarretam estresse. A falta de interação social, em especial, trouxe impactos potentes na esfera da socialização, como a ausência de rede de apoio ou a sensação de isolamento emocional. A imprevisibilidade de um contexto pandêmico favoreceu o aparecimento do medo, a ansiedade e o desânimo.”

SINAIS/SINTOMAS (FÍSICOS E EMOCIONAIS)
Muitas vezes, a pessoa que está sofrendo um desgaste emocional pode não perceber diretamente o que está acontecendo consigo mesma. Eis que algumas mudanças no corpo e na mente podem indicar que a saúde mental precisa de atenção. Alguns dos sinais podem envolver:
- Mudanças bruscas de humor;
- Maior irritabilidade e ou agressividade;
- Dificuldade de concentração;
- Insônia, lapsos de memória;
- Cansaço crônico,
- Ansiedade, depressão;
- Visão de mundo e de futuro mais pessimista, baixa autoestima, entre outros.
Já as manifestações físicas que podem estar associadas incluem:
- Dor de cabeça;
- Enxaqueca;
- Cansaço;
- Sudorese
- Palpitação
- Pressão alta
- Dores musculares
- Insônia;
- Crises de asma, distúrbios gastrointestinais.

 RECONHEÇA CADA EMOÇÃO

Foto: Divulgação Segundo a psicóloga Gabriela Damasceno, é importante ressaltar que o equilíbrio emocional não significa evitar emoções difíceis. “Isso é impossível e indesejável. O equilíbrio emocional relaciona-se com a capacidade de reconhecer a experiência do momento presente, identificar as necessidades e atendê-las, na medida do possível. Um exemplo: se noto que estou mais irritável, percebo mais cansaço, identifico que preciso descansar, peço permissão no trabalho para utilizar o banco de horas para fazer uma pausa.”

Quando se está em um ritmo sem equilíbrio, situações de descanso vão sendo deixadas de lado, o que agrava os desgastes. “Ter momentos de descanso durante a semana e tempo de qualidade para si, valorizar as pequenas conquistas e realizações, e se envolver com atividades que tragam sentido e vitalidade, auxiliam na busca por um equilíbrio emocional duradouro.”

EM CASO DE BURNOUT

A Síndrome de Burnout integra a Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS). O termo define o cansaço e o estresse sentidos por pessoas que se encontram sobrecarregadas ou perdem a motivação no trabalho. Na definição do Ministério da Saúde, o Burnout “envolve nervosismo, sofrimentos psicológicos e problemas físicos, como dor de barriga, cansaço excessivo e tonturas. O estresse e a falta de vontade de sair da cama ou de casa, quando frequentes, podem indicar o começo da doença.”
Para a psicóloga, o primeiro passo é identificar quais mudanças significativas estão ocorrendo. “No Burnout ou estresse relacionado ao trabalho, é importante atentar para a exaustão/esgotamento emocional, redução da capacidade física, sensação de baixa realização profissional, ou ainda uma avaliação negativa do próprio desempenho profissional. A partir disso, é necessário fazer algo para transformar o quadro. Alguns passos incluem retomar as práticas de autocuidado, falar com chefia (se for o caso) para reorganizar logística de trabalho, cultivar a autocompaixão, pedir ajuda à rede de apoio mais próxima. A busca de algum tratamento profissional pode ser indicada, como o início de um processo psicoterapêutico, por exemplo”, explica Gabriela Damasceno.

 7 dicas para resgatar e manter o equilíbrio emocional

1) Descansar é essencial. Tanto por meio de um sono de qualidade quanto por momentos de pausa ao longo do dia. Busque atividades que auxiliem no sono profundo e de qualidade, como meditações ou protocolos de higiene do sono.
2) Se mexa. Praticar alguma atividade física, que movimente o corpo e ajude a liberar a tensão do dia a dia. Em especial, opte por realizar uma atividade de seu interesse pessoal, ao menos 20 minutos por dia em intensidade elevada.
3) Cuide da saúde. Inclua a prevenção e o trato de doenças físicas. Mantenha uma alimentação equilibrada: identifique alimentos que fazem você se sentir excessivamente emotivo, por exemplo. Evite também substâncias que alterem o humor, como o uso de álcool, drogas ilícitas ou consumo excessivo de cafeína.
4) Priorize o sono. Tente dormir de 7 a 9 horas por dia. Manter um padrão de sono consistente ajuda se há dificuldade para dormir.
5) Mantenha seus contatos, ainda que à distância. Fazer contato com a sua rede de apoio mesmo que de forma virtual pode trazer uma sensação de pertencimento e aliviar as sensações mais desagradáveis.
6) Tenha um tempo para você. Dar conta das demandas obrigatórias é necessário, mas ter um tempo para apreciar o momento, desenvolver uma habilidade, ou realizar uma atividade prazerosa faz toda diferença no cuidado da saúde mental.
7) Peça ajuda! Se você perceber que não está conseguindo fazer as coisas da forma como gostaria, ou que nota um sofrimento emocional intenso, não ignore. Pedir ajuda pode envolver buscar o apoio de algum profissional (como um psicólogo ou psiquiatra, por exemplo) ou explicitar as suas dificuldades para alguém que vive com você. A ideia é lembrar que pedir ajuda não é fraqueza. É um ato de coragem e de cuidado com você.

A IMPORTÂNCIA DA SAÚDE MENTAL E O ESPORTE DE ALTO RENDIMENTO

Durante os Jogos Olímpicos, Biles declarou à imprensa mundial: “corpo e mente não estão em sintonia”. O relato é mais conhecido como "twistie", ou ainda, um descompasso entre corpo e mente. Nesse estágio, o atleta pode sentir medo de executar os exercícios, seja por receio de errar ou até mesmo de se lesionar. Para o gestor da i9 Academia, em Novo Hamburgo, Alexsander Dias de Vargas, uma série de fatores pode ter colaborado com o quadro da ginasta, porém, um deles é comum e negligenciado. “Esse ocorrido acomete uma fatia relevante das pessoas, que é o autoconhecimento e a clareza dos seus reais propósitos”, explica.

O empresário, que hoje trabalha com foco em gestão e desenvolvimento pessoal, mental e social, já foi atleta de Handebol da Sociedade Ginástica de Novo Hamburgo por 9 anos e atuou como treinador e preparador físico de atletas de alto rendimento, por mais de 10 anos. Com a vasta experiência, Alex crê que entre os elementos que alimentam os “bloqueios mentais” humanos estão a necessidade de aceitação por parte das pessoas próximas, lideranças e do público em geral, questões ligadas à resiliência, dor, medo do futuro e, mais recentemente, da Covid-19.

A ATIVIDADE FÍSICA NA SAÚDE MENTAL E CORPORAL

Foto: Marlon Arruda/Especial
Treinando atletas de alto rendimento (inclusive olímpicos: a handebolista Bárbara Arenhart, que hoje vive na Europa), Alex relata que uma das principais influências da atividade física na vida das pessoas é o desenvolvimento da resiliência para o enfrentamento dos desafios do dia a dia. “A atividade física e o esporte têm relação direta com o controle mental para enfrentar adversidades. Nos tornando mais resilientes, olhamos os problemas como desafios a serem superados, não apenas a parte ruim deles”, afirma. Dentre outros benefícios do esporte praticado regularmente está o autoconhecimento. “A disciplina da atividade regular treina o cérebro para suportar dor e superar limites impostos pela mente, não só pelo físico. O esporte atua incentivando que você supere as próprias limitações antes de superar as do adversário”, explica o treinador.

A PRESSÃO DO ALTO RENDIMENTO
Sobre o lado psicológico do alto rendimento, Alexsander destaca que ele não é sinônimo de saúde, pois existem as interferências hormonais e tem uma relação muito parecida com a droga. “Um atleta de alto rendimento recebe por meio dos treinamentos doses altíssimas dos hormônios do prazer (endorfina), catecolaminas, adrenalina, testosterona e o hormônio do crescimento (GH). Mesmo as mulheres têm aumento da testosterona, se sentem poderosas e os homens também. Entram num limiar de excitação, ou seja, quanto mais se tem, mais se quer, e então você fica refém dessa situação”, explica.

PODEMOS, SIM, ERRAR
Apesar de na teoria sabermos que a perfeição não existe, é da natureza humana buscar atingir sempre o melhor. Contudo, em tempos de redes sociais, se comparar com outras vidas pode agravar tendências de insegurança e depressão. “Sou categórico em afirmar que rendimento e saúde estão em lados opostos. Ainda mais agora, quando se posta nas redes sociais só o que se quer que os outros vejam e não o que sentimos. Quando vemos a foto de uma pessoa sarada, correndo na praia, meditando, nos questionamos: ‘o que estou fazendo de errado’? Os medos florescem. O senso de responsabilidade também aflora”, explica o empresário ao traçar um paralelo com a história de Simone Biles. “Me parece que com Biles ocorreu algo como ‘eu não posso errar, tem uma nação que depende de mim’. Em tempos de tantas mortes e notícias negativas, saber que podia trazer um alento aos amigos e familiares e não poder falhar é uma pressão enorme. Mas podemos errar a todo momento, somos seres humanos falhos e incompletos. A sociedade nos cobra que sejamos infalíveis. No caso de Biles, que vem de uma história maravilhosa de vitórias, tudo se potencializa”, elucida.

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