- Variedades -

Mateus Solano

09.04.2018

Um ator talentoso, bem-humorado, engajado em causas ambientais, e que cativa sempre o público, seja interpretando um mocinho ou um vilão. Mateus Solano, 37 anos, nasceu em Brasília mas com apenas 4 anos foi morar no Rio de Janeiro. Com papeis marcantes ao longo da carreira, ele assume que a comédia é o gênero que mais se identifica, mas que adora papeis desafiadores. Mateus estará este mês apresentando o espetáculo Selfie – dias 7 e 8 de abril, no Teatro do Bourbon Country, em Porto Alegre – ao lado de Miguel Thiré, e aproveitamos para conversar sobre o tema da peça e sobre sua carreira. “A peça vai bem além da autoexposição nas redes sociais. Ela é sobre a relação esquizofrênica que a gente tem com a tecnologia e com o mundo virtual. Hoje para você ser alguém real, tem que ser alguém no mundo virtual.”


Perguntamos também ao Mateus o que ele acha que falta para o teatro ser mais popular. Segundo Mateus, o teatro foi criado a partir de improvisações que foram escritas e desenvolvidas por Daniela Ocampo e Marcos Caruso na direção. “Também buscamos improvisações locais, mencionando referencias das cidades, mas o mote mesmo que fez a peça ter tanto sucesso (ela está em cartaz desde 2014) é o fato da identificação de quem está assistindo”, diz. Perguntamos também ao Mateus o que ele acha que falta para o teatro ser mais popular. Segundo ele, falta um incentivo mais responsável do governo em não deixar uma lei ou os empresários escolherem um ou outro espetáculo. “Deveria ter alguma coisa mais séria, talvez a partir do Ministério da Cultura, onde a escolha dos incentivos das peças fossem equilibrados e motivados através de um governo sério que tem noção que cultura é base e não penduricalho”.


Em relação ao tema do espetáculo Selfie, como você lida com isso? Você que cuida das suas redes sociais?

Mateus - Eu sou muito mais desligado do que eu deveria, pois como pessoa pública, o meu talento vai ser ultrapassado pela quantidade de likes que alguém tiver e isso já está bem próximo de acontecer... Se é que eu já não perdi algum papel porque alguém tem mais likes do que eu. Num futuro próximo vai interessar mais a uma empresa contratar uma pessoa que tem mais visibilidade na Internet do que uma pessoa talentosa, não que as duas coisas não possam andar juntas, mas o fato é que eu tenho muita preguiça de estar o tempo todo relacionando minha vida real com as pessoas que estão me assistindo. Mas, forçosamente, eu tenho praticamente tudo, Twitter, Facebook, Instagram... No Facebook e Instagram eu divido as postagens com o Átila (seu assessor de imprensa). Eu tenho um insta fechado onde posto as fotos dos meus filhos pois eu não os exponho para todo mundo. Isso ainda é muito estranho para mim, pois sou da geração de 1980, então peguei tudo desde a manivela, é meio estranho essa relação tão exacerbada de cabeça baixa olhando para dentro de uma tela. 


E você acredita que com o tempo irá se adaptar?

Mateus - Sim, todos tendemos a isso, afinal de contas o mundo está indo para algum lugar e nós temos que ir com ele, senão ficamos para trás. Acho também que temos que lutar dentro desse mundo pelo o que achamos ser exagero ou pelo que está faltando. O fato é que delegar funções que antes o cérebro tinha para uma máquina acaba atrofiando o cérebro.


Falando em carreira, qual foi o seu maior desafio?

Mateus - Eu Acho que cada papel tem um desafio muito diferente e como costumo dizer, o melhor papel é o que estou fazendo no momento, isto porque ele vem carregado do que eu já fiz ou aprendi. Acredito nisso não só no trabalho, mas na vida: o melhor lugar do mundo é aqui e agora.


Mas teve algum personagem que te exigiu mais preparo?

Mateus - Na verdade são muitos. No teatro eu já fiz uma pessoa totalmente drogada, já fiz gêmeos na televisão, fiz o papel do Félix que teve muito sucesso... Então cada um traz desafios muito diferentes. O Ronaldo Bôscoli por ser uma pessoa que existiu eu tinha que correr atrás de uma memória que estava na cabeça das pessoas. São desafios muito diferentes.


É isso que te motiva?

Mateus - Sim, com certeza. Quanto mais desafiador no sentido de ter que pesquisar, de procurar algo novo, não só um gesto, como forma de falar, melhor. É muito legal.


Nós aqui da redação lembramos muito do Félix, que mesmo sendo vilão cativou muita gente...

Mateus - Primeiro foi em função do próprio texto. O Félix por mais vilão que fosse ele foi construído para ser divertido e engraçado. Na época, o politicamente incorreto estava começando e o Walcyr (Carrasco) teve a brilhante ideia de mexer com a cabeça do telespectador fazendo um vilão divertido em um lugar onde as pessoas não poderiam ser assim. O Félix acabava dizendo muitas coisas e falando maldades que nós gostaríamos de falar no dia a dia e não conseguimos, por isso ele era delicioso de assistir, é o vilão comum que nós não podemos ser. E ele foi tendo tanto sucesso que foi ficando impossível para o Walcyr não salvá-lo. Então ele foi adaptando a história, já que é mestre nisso, para que tudo fosse remediado.


Tem algum papel que você sonha em fazer?

Mateus - Eu realmente sonho em poder continuar sendo confiado a personagens diferentes e desafiadores. Eu não tenho nenhuma pretensão deste tipo, mas o quanto mais longe de mim o personagem for, melhor...


E você se identifica muito com a comédia, certo?

Mateus - Sim, me identifico muito. Sempre me identifiquei. Acho que a comédia tem que estar em todo o lugar. Até no drama mais dramático ela tem que estar em algum lugar. Eu adoro humor!


Nas redes sociais te vemos engajado em ações para a melhoria do Rio de Janeiro. Mas o que você acha da atual situação da segurança?

Mateus - Eu estou vendo tudo isso com pesar e apreensão e tentando me informar sobre o lado a e lado b, os prós e contras. É o tipo de coisa que está longe de mim. Sou do campo das artes e engajado na luta pelo meio ambiente, coisas que estão ao meu alcance. Mas sobre a segurança no Rio eu me sinto refém do que é mandado e desmandado, não só eu como grande parte da população. Eu vivo em um mundo à parte, não só pela minha posição social que conquistei mas pelo carinho das pessoas. Isso é muito doido, pois quando cruzo com pessoas que passam por essa realidade elas ficam felizes em me ver, pois o meu trabalho de alguma forma trouxe alegria a elas. Eu na verdade fico ilhado nessa da fantasia da cabeça das pessoas, seja ela rica, pobre, benfeitor ou traficante...

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