Revista Like Magazine

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Mulheres de cinema

08/03/2016 17:41 / Por Ulisses da Motta Costa

Nada mais apropriado que dedicar a coluna de março ao Dia Internacional da Mulher e à presença feminina na indústria cinematográfica. Afinal, mulheres tenham trabalhado nas mais diversas áreas do audiovisual desde o seu início, há 120 anos.
 
Hoje, a batalha é por equidade salarial e por se estabelecer como autoras cinematográficas. Ainda há bastante caminho a ser percorrido, mas os espaços têm sido cada vez mais ocupados por elas. A coluna então selecionou cinco mulheres cineastas que estão fazendo a diferença na indústria capitaneando filmes importantes. É só uma pequena amostragem: temos bem mais diretoras trabalhando por aí. Fiquem de olho.
 
Kathryn Bigelow (EUA): veterana na indústria, Bigelow é ainda a única mulher a receber o Oscar de melhor direção (em 2010 por Guerra ao Terror). Antes disso, já tinha uma sólida trajetória comandando filmes de ação. Hoje, aos 64 anos, tem preferido temáticas políticas, não raro controversas. Prova de que mulheres diretoras não precisam lidar apenas com assuntos considerados “femininos”. O que ver: o Caçadores de Emoção original, de 1991 (com Keanu Reeves e Patrick Swayze), ainda hoje um belo policial de ação, e o polêmico A Hora Mais Escura.
 
Patty Jenkins (EUA): Jenkins é a diretora escolhida pela Warner para comandar o filme solo da Mulher-Maravilha. A produção está sendo rodada neste momento e estreará no ano que vem. Normalmente os estúdios dão seus blockbusters para diretores com mídia (e homens), então a escalação da cineasta em si já é algo novo. O precedente pode abrir caminho: mais mulheres deverão no futuro comandar superproduções. O que ver: em junho de 2017, Mulher-Maravilha. Do que ela já fez, o pesado Monster: Instinto Assassino, que deu o Oscar a Charlize Theron.
 
Nadine Labaki (Líbano): se já é difícil para uma mulher se firmar como diretora nos países ocidentais, imaginem em países mais fechados, como em alguns casos do Oriente Médio? Das várias diretoras que trabalham no Irã e no Marrocos, resolvi destacar uma que tem a obra mais fácil de achar, a libanesa Nadine Labaki. Além de ser uma ótima atriz, é uma diretora e roteirista corajosa que critica a sociedade do Líbano, dividida numa luta uterina entre cristãos e muçulmanos. Seu enfoque é o papel da mulher dentro dessa conjuntura. O resultado é maravilhoso. O que ver: seus dois longas, E Agora Onde Vamos? e Caramelo. Assista.
 
Ana DuVernay (EUA): ela começou sua carreira na área de divulgação e comercialização de filmes em Hollywood. Passou a dirigir curtas nos anos 2000 e em 2014 agitou os EUA com o belíssimo Selma: Uma Luta pela Igualdade. Essa cinebiografia de Martin Luther King a lançou como principal diretora negra dos EUA. Ano passado, sua ausência nos indicados ao Oscar de melhor direção provocou revolta. O que ver: ainda não viu Selma? Pare o que está fazendo e vá assistir. É um filme essencial.
 
Anna Muylaert (Brasil): o brasileiro não sabe, mas Anna Muylaert é parte essencial da nossa infância televisiva. Roteirista talentosa, era uma das redatoras dos clássicos Castelo Rá-Tim-Bum e Mundo da Lua (lembram?). Escrevendo para outros diretores, tem em seu currículo os excelentes Desmundo e O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias. Na direção, sua maior façanha é o sucesso inesperado Que Horas Ela Volta?. Sua nova obra, Mãe Só Há Uma, inédita no Brasil, foi premiada no Festival de Berlim. O que ver: além dos já citados, o ótimo É Proibido Fumar.

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Retomada 20 anos

07/12/2015 18:14 / Por Ulisses da Motta Costa

Neste ano de 2015, comemoramos os 20 anos da Retomada da produção brasileira de cinema. Pouquíssima gente se lembrou da data. Porque, afinal, a história da nossa cultura é algo que damos valor nenhum.

 

A Retomada foi um momento crucial. O cinema nacional teve seu melhor momento de produção e público na década de 1970. A partir dos anos 80, entrou em decadência por vários motivos e, entre 1989 e 1994, praticamente morreu. Nessa época, menos de cinco longas eram lançados anualmente.

 

Em 1995, porém, graças à criação de leis de incentivo, o nosso cinema saiu da UTI. Com maior preocupação com o acabamento e se regionalizado por outros estados, criou-se uma nova cinematografia. Para lembrar a data, eu listo aqui sem muito compromisso 20 marcos cinematográficos destas duas décadas.

 

1. Carlota Joaquina, Princesa do Brasil (1995, direção de Carla Camurati): essa comédia histórica com visual extravagante marca o começo da Retomada, graças ao público de 1,2 milhão de espectadores.

2. Central do Brasil (1998, direção de Walter Salles): premiadíssimo no exterior, ganhou uma indicação a nada menos que dois Oscars: melhor filme estrangeiro e melhor atriz para Fernanda Montenegro. Fez um público incrível para um filme de arte.

3. Castelo Rá-Tim-Bum, o Filme (1999, direção de Cao Hamburger, aventura).

4. O Auto da Compadecida (2000, direção de Guel Arraes, comédia).

5. Lavoura Arcaica (2001, direção de Luiz Fernando Carvalho): uma verdadeira obra-prima. Um drama forte, carregado de imagens belas e angustiantes e com grandes performances do seu elenco.

6. Bicho de Sete Cabeças (2001, direção de Laís Bodanzky).

7. Cidade de Deus (2002, direção de Fernando Meirelles): um dos melhores filmes do milênio. Virou influência para ação mesmo dentro de Hollywood (ainda mais com quatro indicações ao Oscar). Encerra o período da Retomada: a partir dele, a produção nacional estaria suficientemente consolidada.

8. Babilônia 2000 (1999), Edifício Master (2002), Jogo de Cena (2007), Um Dia na Vida (2010) e todos os documentários do mestre do gênero, Eduardo Coutinho. 

9. Ônibus 174 (2002, direção de José Padilha, documentário)

10. O Homem que Copiava (2003, direção de Jorge Furtado): melhor filme gaúcho do período, misturando suspense, comédia e drama em cenários tipicamente porto-alegrenses.

11. Estamira (2004, direção de Marcos Prado, documentário).

12. Casa de Areia (2005, direção de Andrucha Wadington, drama).

13. Tropa de Elite e Tropa de Elite 2 (2007 e 2010, direção de José Padilha, ação).

14. Estômago (2007, direção de Marcos Jorge, suspense).

15. Eu Não Quero Voltar Sozinho (2010, direção de Daniel Ribeiro). Curta multipremiado mundo afora que deu origem a um longa, também sucesso de público.

16. Cine Holliúdy (2012, direção de Halder Gomes). Deliciosa comédia made in Ceará.

17. 2 Coelhos (2012, direção de Afonso Poyart, ação).

18. Elena (2012, direção de Petra Costa, documentário).

19. O Menino e o Mundo (2013, direção de Alê Abreu). Não é a primeira animação de longa-metragem realizada no período. Mas atualmente concorre a uma vaga ao Oscar de melhor animação. Já imaginou se é indicado?

20. Que Horas Ela Volta? (2015, direção de Anna Muylaert, drama). 

 

Três anos de Like

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Que horas ela volta?

04/11/2015 17:18 / Por Ulisses da Motta Costa

Assistiu ao belo Que Horas Ela Volta?, o fenômeno deste ano do cinema brasileiro? Não só é o nosso representante oficial para uma vaga ao Oscar, como também tem sido bem recebido no circuito alternativo no exterior – onde foi lançado com o título de The Second Mother ("A Segunda Mãe"). 

Por enquanto, a obra entrou em cartaz em 30 países das Américas, Europa e Oriente Médio. Na Itália, ficou no top ten da bilheteria local na sua estreia. Na França, fez 150 mil espectadores em apenas um mês.   

Muito já foi dito sobre o filme e suas qualidades: um drama que é repleto de leveza e também de humor, focado no carisma de seu elenco e com um teor forte de crítica das relações sociais patrão-empregado. A diretora e roteirista Anna Muylaert (que é da geração dos primeiros anos da Retomada) dirige a obra sem afetação, deixando a câmera estática acompanhar a cena inteira, com poucos cortes. Ela deixa espaço assim para seu excelente elenco brilhar. 

Regina Casé, como a protagonista Val, faz uma das grandes performances femininas da nossa cinematografia. Surpreso, caro leitor? Antes de ser apresentadora, Casé tem uma sólida carreira como atriz que vem desde os anos 1970. Mas o fato é que, se ela brilha na composição de uma empregada doméstica que vem de Pernambuco para São Paulo (e até o seu sotaque é muito bem cuidado), os demais atores oferecem o palco perfeito para ela. 

Fala-se muito da jovem Camila Márdila (que está ótima), mas me chamou a atenção a performance de Karine Telles como a patroa de Val, Bárbara. Sem maiores alardes, faz com uma inteligência soberba o papel da mulher rica e amargurada que trata seus empregados com falsa simpatia. 


Que Horas Ela Volta? se encaixa numa característica recente da produção nacional nesta década de 2010: a de filmes pequenos e às vezes despretensiosos que surgem como fenômenos de aceitação de crítica e público brasileiros – num processo que aponta formas alternativas de cativar o espectador. Em anos recentes, tivemos O Som Ao RedorCine HolliúdyElenaHoje Eu Quero Voltar Sozinho – formas e conteúdos diversos que conseguiram romper os grilhões do mercado, fazendo uma boa bilheteria em relação às suas pretensões. 


No caso da obra de Muylaert, dois fatores foram essenciais: a premiação em dois festivais internacionais de primeiro escalão, Sundance nos EUA e Berlim na Alemanha; e a insistência da distribuidora Pandora em aumentar o circuito exibidor à medida que o boca-a-boca sobre o filme também crescia. Assim, o público no Brasil, que começou tímido (26 mil ingressos vendidos no fim de semana de estreia), foi aumentando de maneira surpreendente. Seis semanas depois, já eram 400 mil espectadores. 


Se Que Horas Ela Volta? será indicado ao Oscar? Tem chances: está cotado pela imprensa estrangeira como um dos favoritos a ocupar uma vaga na final. Alguns analistas citam Regina Casé como uma possível, ainda que remota, concorrente ao prêmio de melhor atriz. Prêmio em si não se sabe. Mais importante que isso é assistir ao filme assim que possível. Vale a pena. 

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De volta ao presente

05/10/2015 16:51 / Por Ulisses da Motta Costa

Uma das coisas mais gostosas de ser cinéfilo é assistir a um filme que passa num futuro próximo e esperar aquela data para fazer um comparativo do que o cinema “previu” e o que de fato aconteceu.

Talvez nenhuma data fictícia mostrada num filme seja tão es­perada quanto 21 de outubro de 2015. Não sabe o que acontece neste dia? É quando Marty McFly, sua namorada Jennifer Parker e o doutor Emmet Brown chegam do passado pilotando o DeLorean, em De Volta Para o Futuro 2.

Há anos alguns espertinhos espalham memes fakes nas redes sociais, tentando enganar as pessoas a respeito da data correta da chegada dos aventureiros vindos da década de 1980. Mas o dia cer­to é agora, neste mês: 21/10/2015.

Como eu comentei, é um momento antecipado. Nos últimos anos, começou a brincadeira de dizer que chegamos em 2015 e nada de jaquetas com secagem automática, skates que flutuam (os “hoverboards”) ou tênis Nike que se amarram sozinhos. Muito me­nos carros voadores.

Por outro lado, há sacadas inteligentes no roteiro. Por exemplo: numa rápida passagem, Marty vê a publicidade de Tubarão 19, com um tubarão holográfico. Mesmo sendo superlativa, a cena profetiza o atual momento de ressurreição de franquias, muitas delas con­temporâneas a De Volta Para o Futuro (como Exterminador do Futuro ou Mad Max). Também prevê a quase escravidão dos blockbusters hollywoodianos aos efeitos digitais cada vez menos realistas na fala do protagonista: “o tubarão ainda parece falso”.

Falando em ressurreição de franquias, podemos rezar aos céus que até agora ninguém cogitou (pelo menos seriamente, ou publi­camente) uma refilmagem da trilogia De Volta Para o Futuro. Inclusi­ve, é um elogio aos filmes. Não só quer dizer que eles permanecem atuais (mesmo que o primeiro já tenha completado 30 anos da sua estréia), como também indica que estão afirmados como clássicos imortais.

Porque mesmo que o dinheiro costume falar mais alto, Hollywood costuma ter muito respeito aos seus clássicos pétreos, como Casablanca, ...E O Vento Levou ou O Poderoso Chefão. Nin­guém cogita refazer essas obras-primas. De Volta Para o Futuro, as três partes, são perfeitos representantes do cinema americano da década de 1980 e se alinham com esses gigantes.

Dia 21 de outubro de 2015, então, é o dia perfeito para revisi­tar as aventuras de Marty McFly pelo tempo. De preferência com pipoca e companhia, porque alguns filmes foram feitos para se­rem vistos assim.

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Cinemas possiveis

31/08/2015 19:23 / Por Ulisses da Motta Costa

Nosso vizinho, Uruguai, é um país tão encantador quanto é pequeno. O mesmo serve para o seu cinema: anualmente, produz-se lá entre dez ou 12 longas-metragens – em comparação, no Brasil fazemos cerca de cem. O mercado exibidor tem cerca de 40 salas na capital Montevidéu e poucos cinemas nas cidades menores, e isso é menos do que Porto Alegre tem.
 
Contudo, basta acompanhar alguns dos longas realizados no vizinho nos últimos anos para saber que a qualidade geral destas películas é incrível. Como é um cinema de poucos recursos financeiros, seus realizadores se focam no simples: uma boa história e bons personagens.
 
Mês passado, no Festival de Gramado, assisti a um filme uruguaio que mantêm essa tradição recente, Zanahoria (foto). É um thirller político tenso e muito eficiente. Conta a história real de dois jornalistas que, em 2004, a poucos dias da eleição presidencial, são abordados por um informante misterioso. O sujeito afirma ter feito parte das forças de repressão que atuaram na Ditadura Militar uruguaia (que durou de 1973 a 1985) e que teria em mãos documentos preciosos sobre assassinato, tortura e desaparecimento de presos políticos.
 
Além de baseada em fatos, a história cita alguns traumas da vida política uruguaia, tal como a chamada “Operação Cenoura” – suposta ação das forças armadas para descartar corpos de desaparecidos antes da redemocratização do país. Estes elementos históricos são utilizados para criar um eficiente thriller, tenso e dramático e que fala muito não só sobre política, mas sobre a profissão de jornalista também.
 
O interessante em Zanahoria é que o filme é muito simples em termos de produção. Fotografia, direção de arte, finalização: tudo feito com singeleza e sem arroubos de grandiloquência. A força está no roteiro muito bem amarrado, que prende o espectador do início ao fim, e nos ótimos personagens nas mãos de um elenco competente. Tememos pela vida dos protagonista, sem que apareça uma única arma em cena, numa grande subversão das regras do gênero.
 
Talvez um dos problemas do cinema brasileiro em geral seja excesso de ambição, seja qual for o tipo de filme. Os realizadores de comédias querem sempre bater recordes de milhões de espectadores; a galera que curte filme de gênero procura extrapolar limites, tentando fazer blockbusters de ação com recursos insuficientes para a empreitada de “revolucionar” o cinema nacional; o pessoal do cinema de arte procura sempre criar catarses simbólicas pretensiosas que não raro resultam vazias.
 
O cinema nacional, em suma, quer ser do tamanho do seu país (e na cultura do brasileiro vive um complexo de grandeza exagerado). Alguns dos nossos melhores e alguns dos piores filmes são nascidos de pretensões grandiosas. Mas talvez tenhamos que começar a ser mais humildes e pensar em cinemas mais possíveis. Zanahoria e a produção uruguaia são exemplos de que dá para ser básico e ser muito bom.

 

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