Revista Like Magazine

Este site foi desenvolvido com uma tecnologia que este navegador não suporta.
O navegador que você está utilizando está desatualizado. Ele possui falhas de segurança e uma lista limitada de funcionalidades. Você perderá qualidade na navegação em alguns sites.


Escolha um novo Navegador e navegue com mais segurança

Estas são as últimas versões dos navegadores gratuitos mais utilizados.



Histórias mexicanas

08/03/2016 17:06 / Por Leticia Wierzchowski

Há muitos anos, fiz uma viagem ao México. Gastei muitos dias calorosos visitando as ruínas maias e astecas - eu, que gosto de antigas civilizações -, embrenhei-me por aquelas cidades de pedra e de sol, perdidas nas florestas, construídas em elevações à beira-mar sob os auspícios de um oceano tão verde que chega a ser inacreditável.
 
O México tem uma das mais tristes histórias desse mundo. Ainda antes dos astecas tornarem-se o povo mais poderoso da América, desvendando segredos da astronomia que o homem só viria a entender muitos séculos depois, o povo maia desapareceu sem deixar vestígios, e suas cidades desabitadas lá ficaram, palcos de um passado impressionante. Mas a história asteca, com seu final trágico, é o tema desse texto... Pois, vivia o grande Montezuma na sua bela cidade (Tenochtitlán, a capital asteca tinha calçadas que eram varridas três vezes ao dia, enquanto os europeus tomavam banhos mensais), quando Hernán Cortéz, a serviço do imperador Carlos V da Espanha, apareceu por lá depois de cruzar oceanos em busca de tesouros.
 
O grande deus dos astecas era Quetzalcoatl (a serpente emplumada, que teria escamas de ouro), e quando Hernán Cortéz desembarcou, seguindo no rumo da capital asteca com sua comitiva a cavalo (os astecas nunca tinham visto um cavalo na vida, e acharam que homem e cavalo eram uma coisa só), Montezuma teria recebido um presságio dos seus deuses, avisando-o de que Quetzalcoatl estaria por chegar. Bem, Cortéz teria já parado em outros pontos da
costa mexicana e feito prisioneira, entre outros, a princesa Malinche, que era de uma tribo escravizada pelos astecas. Quando o conquistador chegou, devido aos presságios de seus deuses, Montezuma recebeu-o no seu palácio com todas as glórias - e Malinche, que falava a língua dos astecas e aprendera o espanhol, pois tornara-se amante de Cortez, contou-lhe que o rei asteca o recebia como um deus (Cortéz era loiro e usava uma armadura com plumas, lembrando a serpente).
 
Assim, os espanhóis entraram na grande cidade de ouro e pedras, e não demorou muito para que a civilização asteca, conhecedora dos mistérios das estrelas e dos planetas, fosse dizimada para todo o sempre. Era um povo bélico, afeito a sacrifícios humanos, mas era um povo sábio, de uma sabedoria que os europeus não puderam entender, e ignoraram. Foram dizimados pela varíola e outras doenças que os espanhóis trouxeram em seus barcos, todo o seu ouro foi parar na Espanha, suas crianças foram escravizadas ou mortas, e Montezuma, o grande imperador que abriu as portas e ofereceu ao seu conquistador as honras de um deus, virou história. Quanto a Malinche, foi a grande artífice da conquista espanhola, mas as glórias recaíram todas sobre Cortéz, é claro.
 
Para os astecas, havia sete céus, e somente os mortos em batalha, as virgens, os corajosos e aqueles entregues ao sacrifício religioso sob a lâmina da adaga é que chegariam ao último céu, o paraíso. Eles se chamavam "a humanidade do sétimo céu". E aqui eu os deixo, com um pequeno cartão postal desse país tão lindo, dono de um passado de tirar o fôlego, com sua capital gigantesca e fervilhante, e praias de mar tão azul e areias tão brancas que, as três da tarde, quase se podem ver os deuses passeando por lá... Por um momento, os crédulos como eu até entendem o delírio do rei Montezuma.

Compartilhe:

Meia noite inteira

07/12/2015 18:13 / Por Leticia Wierzchowski

Neste final de ano, eu não quero presentes, nem festas, nem badalação. Eu quero uma janela para o mar, uma praia deserta, um coração leve, um lugar querido. Eu quero poucos perto de mim, só os amores verdadeiros. Eu quero uma bebida gelada e uma música calma. Eu quero uns passarinhos cantando e, depois, estrelas no céu. Eu não quero fogos, quero abraços. Não quero pista cheia, quero paz de espírito. Não quero fitas, quero laços.

Neste final de ano, não quero a sensação de chegar ao final, quero começar tudo de outro jeito. Não quero olhar pra trás, quero mirar em frente. Não quero chuva, quero sol. Não quero lágrimas, quero esperança. Não vou pular sete ondas, vou furar cada uma delas: quero sal no rosto, quero me lavar inteira. Quero caminhar pela rua sentindo cheiro do mar. Quero a meia-noite inteira pra mim. Quero renascer. Quero fazer rir, quero olhos brilhando. Quero beijos.

Neste final de ano, não quero me acabar na pista, quero respirar fundo. Não quero salto alto, quero areia nos pés, quero um colar de conchas. Não quero previsões, quero pressentimentos. Não quero muito, quero o suficiente. Neste final de ano, quero virar a página. Quero começar outro livro, quero as histórias com final feliz, quero cantar o meu refrão preferido. Quero Neruda, quero champanhe, quero cerejas. Não quero uma árvore de natal, quero luzinhas no pátio. Quero o riso dos meus filhos. Quero estar sob o Cruzeiro do Sul. Quero acreditar. Quero perdoar. Quero mudar. Quero ter paciência. Quero esquecer as dores.

Neste final do ano, ninguém vai me achar. Quero o celular desligado, quero as chaves do carro na gaveta. Quero jasmins do quintal, quero uma roupa folgada. Quero uns amigos do peito, quero dar muita risada. Quero os pés no sofá, quero a sala aberta. Se eu chorar vai ser de alegria, neste final de ano.

Compartilhe:

Um cafe da manha do outro mundo

04/11/2015 17:16 / Por Leticia Wierzchowski

Todos sabemos o quanto o café da manhã é importante para a saúde. Mas ninguém conhece uma história de café da manhã como esta – que é verídica, aconteceu aqui em Porto Alegre no final da década de 1940, e faz parte do meu folclore familiar...

Meu avô polonês, Jan Wierzchowski, embora tivesse emigrado e criado raízes no Brasil, era um ufanista da Polônia. Além da capacidade do avô, a sua firma de construção civil prosperou também porque a maioria dos funcionários eram seus patrícios – no período que se seguiu à Segunda Guerra, os ex-combatentes poloneses (que lutaram com os Aliados e eram "inimigos" dos soviéticos, portanto) tinham se tornado apátridas: famosos generais de coragem lendária viviam de bicos na Europa, e oficiais poloneses que ajudaram a libertar a França, a Bélgica e a Holanda varriam a neve das calçadas inglesas em troca de um prato de sopa. Quando a Segunda Guerra acabou, meu avô voltou ao Brasil e, nos anos subsequentes, trouxe para cá alguns dos ex-colegas de Divisão, oferecendo-lhes emprego: estes eram os seus fiéis funcionários, seus amigos queridos, o seu pedaço da Polônia aqui em Porto Alegre.

A história que conto é sobre uma dessas famílias que meu avô recebeu. O avô tinha uma pequena casa que outrora ocupara, e que então usava como abrigo para seus conterrâneos que emigravam para cá. Essa família (vou chamá-los de os Getka) chegou na terceira classe de um navio ao anoitecer, e foi recebida pelos meus avós. Do porto, foram levados para a casa, já anteriormente preparada. Lá, os avós serviram-lhes o jantar e os acomodaram. Antes de partir, Jan prometeu voltar na manhã seguinte com o café da manhã – imaginem que os recém-chegados não falavam uma única palavra de português, e dependiam dos meus avós para tudo.     

Na manhã seguinte, minha avó Anna levantou-se cedo para sovar o pão e ferver o leite para os Getka. Mas qual não foi a surpresa quando, ao chegarem na casinha, Anna e Jan encontraram os Getka já de café tomado, felizes da vida com a "hospitalidade brasileira". Meu avô estranhou e quis saber de onde viera o café da manhã: sobre a mesa, uma bandeja com canjica, flores, maçãs e até cachaça, uma dessas que a gente vê nas esquinas por aí, ofertadas fortuitamente para os orixás, tinha sido fartamente atacada pelo casal Getka.

Acontece que a casa ficava numa encruzilhada e, ao amanhecer, ali estava a bandeja, lindamente decorada. Os Getka acharam que era um presente da vizinhança e comeram tudinho – meu avô demorou anos para fazê-los entender de que aquilo se tratava de um dos famosos "despachos". Seja como for, os orixás não se revoltaram: os Getka viveram felizes para sempre, tiveram filhos e prosperaram, e talvez um de seus descendentes hoje esteja, muito faceiro da vida, jogando búzios num terreiro de umbanda por aí.

Compartilhe:

Ah, as criancas

05/10/2015 16:49 / Por Leticia Wierzchowski

Criança faz poesia o tempo todo e, por isso, estar perto delas muda a dinâmica dos nossos dias. Os dias dos adultos têm hora pra isso e hora praquilo. As crianças têm seus dias totalmente permeáveis – comem fazendo exercício, correndo pela casa, brincam no carro, dormem no shopping, cantam no parque. Criança ainda não aprendeu a delimitar seus tempos e, com isso, torna mais alegres as rígidas horas adultas. Por isso é tão bom estar com as crianças – dá trabalho sim. Eles vão pra lá e pra cá – e a gente atrás, correndo, chutando bola, recolhendo brinquedos, descascando laranjas, dançando na calçada, olhando o passarinho, o cachorro, o grilo. Olhando as coisas com olhos novos, como se o grilo fosse uma mágica – a gente aprende a olhar as coisas novamente com uma criança.

Criança faz poesia o tempo todo – anotei vários ditos dos meus meninos por aí, em papéis provavelmente perdidos; mas, as histórias mais bonitas, guardo dentro de mim. Como a vez em que, tendo comprado um baralho de tarô para in­ventar uma personagem de um romance, abri as cartas no chão do meu quarto. Meu filho mais velho entrou e me viu toda compenetrada, perguntando logo (criança pergunta sempre): “O que é isso, mãe?” Pensei bem e respondi: “É um tarô. Um jogo muito antigo de cartas que pretende adivinhar as coisas pra gente.” Meu filho ficou muito curioso e quis jo­gar. Mandei que sentasse ao meu lado, cortasse as cartas em três montes e fizesse uma pergunta. Ele concentrou-se todo, muito sério no alto dos seus cinco anos, e indagou: “Tarô, eu queria saber quantas sementes tem numa laranja?”

Nunca me esqueci dessa história, da simplicidade do meu menino. Eu gosto de tarôs – às vezes, quando a realidade está por demais sufocante – procuro uma taróloga para tentar es­piar uns caminhos do porvir. Ela já me contou muitas coisas, mas nunca soube me dizer quantas semente tem uma laran­ja. Já o meu menino, ao tirar um sete de copas, voltou todo satisfeito para os seus brinquedos, e nunca mais questionou nem sementes, nem laranjas.

As histórias ficam, mas os filhos crescem rápido. A gente corre pra lá e pra cá, e cai na cama exausta todos os dias, sem perceber que o tempo voa, essa poesia se dissolve, e nossos filhos caminham também para o seu quinhão de dias adultos. De repente, pluft, eles cresceram. E nós é que vamos refazen­do o caminho de volta, com saudade daqueles tempos em que os brinquedos estavam espalhados por toda a sala, e as maravilhas se sucediam ao redor daquelas infâncias de cristal. 

Compartilhe:

Da primavera

31/08/2015 19:00 / Por Leticia Wierzchowski

  Como uma escritora, que narra a sua ficção em capítulos, eu conto o meu ano pelas estações. Gosto do alterar do compasso, da sutil mudança na luminosidade, das tardes que se amplificam e se encolhem discretamente, como aquelas moças tímidas do interior. Não desgosto do inverno, tenho afeto pelos outonos, admiro a luz dourada dos verões, mas a primavera sempre será a estação mais esperada do ano. Lá vem ela, mais uma vez. E é tão bom que venha, espalhando as suas bênçãos pelos jardins das metrópoles, colorindo aqui e ali, uma flor, um canteiro, um muro onde as trepadeiras desabrocharam. As calçadas porto-alegrenses se iluminam de buganvílias, e os passantes mais sonhadores podem tomar um tombo - até na primavera é preciso manter-se atento, meus amigos.

   A primavera vem aí, reverdejando os gramados, as copas das árvores; ela vem colorindo os dias, depois de um inverno chuvoso. Como não comemorá-la? Ela, que é tenaz, fluida e alegre. Ela que traz em seu rastro as mudanças, a luz, os risos? Lembro de uma vez, faz já algum tempo - meu filho mais velho tinha cinco anos e caiu muito doente com uma bactéria gravíssima nos pulmões. Era caso de vida ou morte, e ele foi parar na UTI. Quem já teve um filho correndo risco de vida, sabe o bagaço que fica um coração de mãe... Lá estava eu, ao lado do meu menino, naquele quartinho minúsculo, cheio de aparelhos, e meu filho dormia com o oxigênio preso ao nariz, dormia, lutando a sua batalha invisível, atroz. Ele ainda não estava a salvo, e eu, olhando pela janela (era começo de setembro lá fora, e as buganvílias floriam, e as gentes pareciam mais felizes sob o sol morno) eu, olhando pela janela, não acreditei que a primavera tinha mesmo chegado - mas como, se meu menino estava doente, se mal falava, se respirava com a ajuda de aparelhos?

   A primavera chegou naquele ano, como chegará sempre, e trouxe com ela alguma boa sorte decerto, pois meu menino recuperou-se e, um mês mais tarde, magrinho, abatido, corria ao sol, feliz como só sabem ser felizes as crianças. A vida seguiu em frente, e tudo aquilo ficou na minha memória. Mas sempre que a primavera chega, me lembro de uma frase da Cecília Meireles que diz assim: "A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la." Eu não tinha um jardim naquele dia, encostada à janela da UTI, com meu menino enfermo. Eu não tinha um jardim em mim, mas a primavera, essa teimosa, veio, e meu menino floresceu novamente.

Compartilhe:
Páginas  1 2 3 >