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SEPARADOS PELA PANDEMIA

11.06.2020 por Marcelo Kenne Vicente

Casais afastados, por obrigação ou por opção, usam a criatividade para o relacionamento não se esvaziar. Tudo depende do compromisso de fazer o amor a distância dar certo.

Foto: Adobe Stock O Dia dos Namorados sempre passa a ideia de um romantismo maior entre os casais. Às vezes, é justamente nesta época que relacionamentos esvaziados voltam a ter mais intensidade. No entanto, vivemos um período de mudanças de comportamento motivadas por regras de distanciamento, e isso impacta na forma como vários casais interagem. Também há os muitos casos de parceiros que não se veem rotineiramente devido a fatores diversos, como, por exemplo, atividades de trabalho ou acadêmicas em outro país.


Mas o afastamento, compulsório ou por opção, atrapalha a continuidade do namoro? “Quando há um afeto e um desejo de estarem juntos, não será a distância que impedirá o casal de seguir adiante. Para isso, é preciso lidar com as diferenças e a distância de forma criativa e positiva”, responde a psicanalista Karla Aquino. Segundo ela, o mais importante em uma relação, na qual a convivência diária não é possível, é a vontade de ambos de sustentar o compromisso.


No entanto, é importante lembrar que todos os casais passam por momentos mais complicados, de frustrações e angústias. Para a psicanalista, quando nos encontramos em uma união afetiva com alguém que não vive no mesmo espaço geográfico, é comum existirem alguns períodos mais difíceis e, uma das partes, ou ambas, começarem e ter dúvidas, tentações e inseguranças emocionais. “Por isso, é essencial escutar o outro e entender seus sentimentos. Uma crise implica em uma ruptura no convívio e um diálogo pode ajudar o casal a reconhecer os problemas, possibilitando que ambos possam construir uma nova forma de relação, mais satisfatória, e provocar a reflexão sobre se valerá ainda continuar a união”, explica.

A INTIMIDADE

Foto: Adobe Stock É claro que a distância impossibilita, em certa medida, momentos de maior intimidade e cumplicidade, quando se conversa, se abraça, chora e ri com a pessoa amada. Sendo assim, é relevante encontrar formas de compartilhar as sutilezas da convivência. “Para ajudar a construir a ideia de casal, é recomendável ter o outro presente em pensamento na vida diária, ao falar sobre ele e reforçar a importância dessa pessoa na sua vida. Nesse contexto, se faz necessária a entrega de ambos, reconhecendo as prioridades e o que é significativo para os dois.”

De acordo com Karla, é possível um relacionamento remoto quando as partes andam na mesma direção e compartilham um objetivo comum. “Talvez o amor esteja justamente em descobrir que o outro é diferente de nós, de nosso ideal e fantasias e mesmo assim encontrar motivos para viver em união.”

A TECNOLOGIA ALIADA

Foto: Adobe Stock É sabido da importância da era digital, com seu impacto no dia a dia e suas infinitas possibilidades. E a ligação da tecnologia com o universo dos relacionamentos amorosos é, por que não, um dos pontos altos da atualidade. “As nossas vivências interpessoais também se transformaram a partir das inúmeras oportunidades geradas por esse meio. Os namoros a distância sempre existiram, no entanto, antes nos comunicávamos por cartas, telegramas dentre outros, mas no fim do século passado, a tecnologia nos apresentou a novas ferramentas.”

Ou seja, o mundo digital nada mais é do que um recurso para auxiliar na manutenção do compromisso. Com essa facilidade, também se pode pensar nas possibilidades de exercício da sexualidade de forma virtual.

JOO PEDRO E RODRIGO

Foto: Arquivo pessoal Moradores de Porto Alegre, o professor universitário Rodrigo de Lemos, de 38 anos, e o médico João Pedro Signor, 30, formam um casal desde 2006, depois de se conhecerem no Bar Ocidente, na capital. O momento de isolamento, causado pela Covid-19, influenciou a vida deles, pois, o fato de João Pedro ser um profissional da saúde motivou os dois a ficarem afastados por um tempo. “O João Pedro atende a muitas pessoas. Então, nos distanciamos a fim de preservar a minha saúde e não me arriscar. Por isso, fui morar com meu pai”, explica Rodrigo.


Ele conta que, apesar disso, o contato permanece diário. “Falamos à noite e, rapidamente, durante o dia. Jantamos remotamente e conversamos. Estamos sempre trocando links, vídeos e leituras”, destaca. E essa é justamente a rotina planejada para o Dia dos Namorados: “Ler algo, jantar, conversar e dar risadas”. Não é novidade para o casal o distanciamento, porque João Pedro estudou duas vezes fora, uma na Itália e uma na França. Ele também fez a graduação no interior do Rio Grande do Sul, apesar de ser de Porto Alegre. “Já eu viajo muito a trabalho. Fiz pesquisa fora e, eventualmente, passo períodos no exterior ou em diferentes cidades brasileiras visitando amigos. Então, essa situação não é desconhecida. Há saudade e solidão, mas já descobrimos como lidar com isso. Só estranhamos essa separação mesmo morando tão perto e na mesma cidade.”

Conforme Rodrigo, todos estão descobrindo uma nova modalidade de convivência: “Estamos presentes e ausentes ao mesmo tempo e o tempo todo. Vamos ver o que vai restar dessa nova forma de vida quando tudo passar”.

EDUARDO E DANIELLA

Foto: Arquivo pessoal Eles começaram a namorar no fim de 2010, ainda no Ensino Médio, quando estudavam na Fundação Liberato, em Novo Hamburgo. Apesar de se verem na escola, iniciaram uma relação mais próxima quando Eduardo a adicionou no antigo Orkut. Olha aí a tecnologia digital ajudando na aproximação! E o romance continua até hoje, cada um seguindo sua carreira profissional: Daniella Decker tem 24 anos e é biomédica esteta. Eduardo Lourenço está com 26 anos e atua como engenheiro eletricista.

Os dois moram em Novo Hamburgo, com os seus respectivos pais. Para o momento atual, resolveram não se ver presencialmente. Daniella explica que o motivo é a proteção dos seus familiares, pois estão quase chegando aos 60 anos de idade. “Como forma de evitar uma disseminação desnecessária, decidimos, mesmo morando a menos de dois quilômetros um do outro, não nos encontrarmos.”

Hoje, o casal conversa mais por vídeo-chamada. Ela conta que os dois já estão, de certa forma, acostumados com o distanciamento: “O Eduardo fez intercâmbio em 2014, na Inglaterra. Foi um ano de muitas saudades, mas de amadurecimento. Antes do início da pandemia, ele costumava viajar bastante a trabalho, então era comum a nossa comunicação pelo WhatsApp, mesmo com o fuso horário entre países”.

No que diz respeito ao Dia dos Namorados, os dois não pensaram muito sobre como celebrar, pois formam um casal que não se importa com datas comemorativas. Já passaram aniversário de namoro no cinema com amigos, por exemplo. O fundamental, segundo Daniella, é estarem juntos e se divertindo. “Talvez eu mande uma encomenda de pizza ou hambúrguer para a casa dele. Poderia ser uma pizza salgada em formato de coração (risos). É uma ideia, ele acharia engraçado”, brinca.

Quando tudo passar, a biomédica planeja dar um longo abraço em Eduardo. “Provavelmente, vou chorar bastante. Não gosto de romantizar situações como a atual. É um momento de tensão. Acredito que, se há um lado bom nisso tudo, é o de refletir, de repensar as prioridades e de dar mais valor a momentos com quem amamos.”

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