- Decoração -

GUILHERME WENTZ: UM NOME AINDA EM ASCENSÃO

18.02.2020 por Taila Rheinheimer Schmidt

Na carreira e vida pessoal, o caxiense Guilherme Wentz, de 32 anos, pratica a simplicidade com alto grau de sofisticação. Seu traço conquista admiradores desde que ele terminou a faculdade de Design de Produto pela Universidade de Caxias do Sul. 

Foto: Bernardo Giesel Recém-graduado, ele recebeu o prêmio IDEA Brasil por seu primeiro produto no mercado, a escrivaninha Officer, e ao longo de sua carreira, os prêmios vêm se acumulando. Mais recentemente, durante a Design Weekend 2019, o designer gaúcho deu mais um passo importante inaugurando a WENTZ, sua primeira loja (espaço de design de objetos, mobiliário e iluminação), localizada nos Jardins, em São Paulo. Para o novo ano, ele quer propor peças menores e estar presente em mais lares mundo afora. Nesta entrevista, realizada durante a inauguração de um espaço dedicado ao design nacional dentro da Casa Bordini, em Porto Alegre, ele relembra o início, projeta o futuro e ainda compartilha conselhos para quem pretende empreender.

Guilherme, qual é o sentimento e como você define a sua primeira loja, a WENTZ?
Guilherme Wentz - A proposta da WENTZ é valorizar o design autoral em ambientes que sejam extensões contemplativas da natureza. Eu defino como um respiro em meio ao caos, com elementos que remetem à tropicalidade brasileira. Ela surgiu do desejo, juntamente do empresário Rafael Gehrke, de lançar uma coleção independente. Com o sucesso da linha, decidimos fundar a marca no segundo semestre de 2018, quando abrimos um escritório comercial em São Francisco, na Califórnia, EUA. Em poucos meses, a WENTZ foi eleita pela revista T, do jornal The New York Times, como “um dos seis estúdios de design da América Latina para se conhecer”.

Seu traço é simples e ao mesmo tempo sofi sticado. Essa percepção ficou logo clara pra você?
Wentz - Alguns dos motivos que me levaram a trocar a Administração pelo Design foram as experiências que tive na época da faculdade, entre os meus 18 e 20 anos. O contato direto com a natureza e novos valores que passei a buscar, como a simplicidade de um estilo de vida mais casual. Pode até parecer clichê, mas foi nesta época que comecei a ter uma relação diferente com a natureza, o que refletiu no meu jeito de vestir, de me expressar. A Administração não condizia com a minha vida pessoal. Foi neste momento que eu optei por uma área criativa, quase aleatória, que foi o Design. A sofisticação que você comentou pode ser o resultado de um certo rigor estético e um extenso trabalho de lapidar as peças e desenvolver os processos produtivos. O design autoral foi uma forma de traduzir o que eu gostava como estilo de vida, valores.

Ainda hoje você consegue estar próximo da natureza, praticando o surfe e outros?
Wentz - Conforme foi crescendo o trabalho, o surfe foi ficando de lado. A gente vai mudando, mas eu sigo o meu propósito de vida mais perto da natureza. E isso refl ete nas minhas criações, na busca pela essência dos objetos e como eles podem interferir na vida ou na escolha das pessoas. Parece meio indireto, mas o design talvez seja uma das ferramentas que menos afeta em termos de linguagem e ideologia, diferente de um livro, de uma música ou da moda, que têm mais expressão.

Você acredita que está mudando a forma das pessoas enxergarem “o morar”?
Wentz - Acredito sim, muito por causa da nossa geração, das questões de pós-modernidade. A gente fez as cidades, a gente como civilização formou essas grandes cidades, que são quase intocáveis pela natureza. Aí surgem as novas gerações, como eu, mais românticas, que tem mais contato com a natureza. É neste momento que a cidade, de alguma forma, tenta se conectar novamente com a natureza e as novas formas de morar.

"Sempre que crio um novo produto, imagino uma casa fictícia onde os moradores estão imersos nesse estilo de vida simples e mais próximo da natureza."

Como é o seu processo criativo?
Wentz - É caótico pra mim, não consegui encontrar ainda uma metodologia. Não consigo simplesmente parar e criar, me envolvo com tudo – questões comerciais, o que vende mais, o que a gente precisa, o que é mais barato de fazer, o que tá vendendo mais. Hoje nada parte do zero, porque no design autoral a sorte é poder manter uma mesma linguagem. Um projeto é uma evolução do último. O que eu quero dizer é que eu tenho menos inspirações diretas, embora tenha alguns produtos que cite “eu me inspirei em um recorte específico da natureza”, a grande maioria faz parte de uma construção de pensamento sobre simplifi cação, sobre como criar este “morar”, que é um refúgio da cidade.

Como você avalia os designers de produtos do nosso País, em comparação com profissionais de outras partes do mundo?
Wentz - Estamos passando por um processo de profissionalização, conforme aumenta a demanda, cresce também a profissionalização. Não acho que a gente é tão bom quanto a indústria lá de fora que faz isso há 100 anos, mas estamos em um ritmo acelerado naquela direção e a mesmo coisa é o público, de entender e valorizar. No recorte global, eu acho que a Internet permite isso – que mais pessoas pequenas possam existir.

Quais os desafios de ter uma marca própria?
Wentz - Muito maiores do que pareciam lá atrás. É recente, a gente acabou de abrir um varejo, uma loja em São Paulo que está com cinco meses agora. Cada etapa foi um desafio. Em 2018 a gente começou a exportação para os Estados Unidos.

Conselhos importantes que você recebeu e que leva para a vida?
Wentz - Aconteceu com a música e aconteceu com a moda. Os grandes perderam um pouco da força, mas deram chance para os pequenos entrarem também. O Oskar Metsavaht da Osklen, de Caxias, também me aconselhou e eu levo isso adiante – “não foca em ser grande no Brasil, foca em encontrar um cara lá no Japão que se identifique contigo. Enquanto tu fores verdadeiro tu vais encontrar espaço”. Ok, não é tão simples assim quando a gente começa a lidar com logística (risos), mas é o caminho que estamos trilhando. Hoje com a comunicação, a relação direta com as redes sociais, a gente consegue ir longe.

E sobre o futuro?

Wentz - Como designer, para a marca própria, a ideia é entrar em outros tipos de coisas que estão dentro de uma casa. Eu sempre fiz mobiliário, iluminação e alguns objetos de decoração, mas nunca fiz revestimentos, pisos, tecidos, cortinas... Eu quero abrir mais a visão e encontrar parceiros para um novo leque de opções. Também quero fazer objetos menores, com um preço melhor para me comunicar com pessoas daqui e do outro lado do mundo.

Linha do tempo
• 2012 - Recém-graduado, recebe o prêmio IDEA Brasil por seu primeiro produto no mercado, a escrivaninha Officer, desenvolvida para a paulista Decameron.
• 2013 - Recebe o prêmio iF Design Award por seu segundo projeto assinado, a Coleção K para Riva, monta seu estúdio e passa a desenhar para diferentes marcas.
• 2014 - Muda o estúdio para São Paulo, assume a direção de Estilo das marcas Decameron e Carbono e é convidado para um projeto comissionado pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo.
• 2016 - Junta-se ao empresário Rafael Gehrke para lançar sua primeira coleção independente, chamada Capítulo 1. É nomeado “Rising Talent” pela Maison&Objet Americas e recebe os prêmios Museu da Casa Brasileira e iF Design Award, ambos pela Luminária UM, para Lumini.
• 2017 - É nomeado Talento em Ascensão no Prêmio Casa Vogue. Um de seus projetos, Vaso Pós-Tropical, vai para o acervo do Museu do Design e da Moda de Lisboa.
• 2018 - Nomeado pela revista T do New York Times como um dos seis estúdios em ascensão das Américas.
• 2019 - A marca WENTZ é estabelecida para produção e distribuição das coleções independentes. Em agosto, a primeira loja da marca foi inaugurada em São Paulo.

Publicidade
Publicidade
Publicidade